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VALOR ECONÔMICO
Mercado interno em alta, importações em baixa graças à tarifa antidumping imposta sobre os produtos chineses e exportações em recuperação depois do tombo do ano passado estão animando as indústrias brasileiras de calçados a tirar planos de expansão da gaveta. Empresas de porte médio como Piccadilly, Bottero e West Coast já anunciaram novas fábricas ou a ampliação das linhas atuais, enquanto grandes empresas como Grendene e Vulcabrás também começam a programar novos investimentos.
Segundo o diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein, o setor opera com uma ociosidade de 15% a 20% ante uma capacidade instalada de cerca de 950 milhões de pares anuais. Mas, com o ritmo atual de alta da demanda, ele acredita que no fim de 2010 a produção anualizada já estará nesse patamar. Conforme as estimativas da entidade, no acumulado de 2009 o país produziu 813,6 milhões de pares, 0,3% a menos do que em 2008.
A Vulcabrás programou para este mês o inicio da ampliação de duas fábricas na Bahia e no Ceará e já encomendou novos equipamentos para aumentar o nível tecnológico e o valor agregado dos calçados que fabrica, informou o diretor-presidente Milton Cardoso. Com 26 unidades industriais no Brasil e na Argentina, a empresa também está concluindo estudos para a expansão da planta de Sergipe e prevê uma produção total superior a 50 milhões de pares em 2010, ante 41,2 milhões no ano passado.
Segundo Cardoso, que também preside a Abicalçados, o novo ânimo do setor deve-se à expansão da demanda doméstica e à decisão do governo de aplicar por cinco anos a tarifa antidumping de US$ 13,85 por par de calçado chinês importado (em setembro havia sido imposta uma sobretaxa provisória de US$ 12,47). Ao evitar a competição predatória no mercado interno, a medida estimula o aumento da produção no país e garante ganho de escala e de competitividade para a indústria nacional no exterior, disse o executivo.
Em comparação com o mesmo período de 2009, as importações de calçados no Brasil no primeiro bimestre recuaram pouco mais de 43% em valor e volume, para US$ 42,8 milhões e 4,8 milhões de pares. Só os produtos chineses caíram cerca de 73%, para US$ 13,5 milhões e 1,9 milhão de pares, respectivamente. Já as exportações avançaram de US$ 280,2 milhões para US$ 295,2 milhões e de 28,8 milhões para 34,2 milhões de pares, segundo a Abicalçados. Em 2009 os embarques haviam recuado 23,7% em volume, para 126,6 milhões de pares, e 27,7% em valor, para US$ 1,36 bilhão, e as projeções preliminares para 2010 são de uma expansão de 3%.
Com o novo cenário, a Vulcabrás admite investir, em 2010 e 2011, um montante próximo dos R$ 160 milhões que haviam sido aplicados no período 2007/2008, informou Cardoso. Em 2009, com a crise, os investimentos limitaram-se a projetos em tecnologia e não ultrapassaram o valor da depreciação dos ativos, já que o volume produzido caiu 6,8% em relação a 2008.
A Grendene, que no ano passado vendeu 165,7 milhões de pares, 13,2% a mais do que em 2008 (sendo 48,3 milhões de pares exportados, com alta de 0,9%), também "iniciou estudos" para aumentar a capacidade de produção de suas fábricas, disse o diretor de relações com investidores, Francisco Schimitt, em teleconferência com analistas na semana passada. Ele não deu detalhes, mas informou que os investimentos serão feitos "possivelmente" ainda em 2010.
Com sede em Parobé, a Bottero coloca em operação na próxima segunda-feira, no pequeno município gaúcho de Travesseiro, a sua quinta unidade industrial, com capacidade instalada de 400 mil pares/ano, disse ontem o porta-voz da empresa, Luiz Roberto Bianchi. Ele não revelou o montante investido, mas explicou que a nova planta vai atender basicamente ao crescimento das vendas domésticas, que absorvem 85% da produção da empresa.
Conforme Bianchi, a Bottero prevê produzir 4,7 milhões de pares de calçados femininos de couro neste ano, ante 4,5 milhões em 2009. Além da matriz e de uma filial em Parobé, a empresa tem outras duas fábricas em Osório e em Santo Antônio da Patrulha, todas no Rio Grande do Sul.
A West Coast, de Ivoti, pretende inaugurar no início de maio uma fábrica no município de Nossa Senhora Aparecida, em Sergipe, que recebeu investimentos de R$ 5 milhões, disse o gestor financeiro da empresa, Eduardo Schefer. A unidade vai começar produzindo 1 mil pares por dia (o equivalente a 250 mil pares/ano), mas o volume deve dobrar em três meses e chegar a 5 mil pares diários em dois anos.
Conforme o executivo, a capacidade instalada da West Coast em Ivoti é de 3 milhões de pares de calçados masculinos e femininos por ano e em 2010 a produção já deve bater nos 2,5 milhões de pares, 25% a mais do que em 2009, quando o crescimento sobre 2008 havia sido de 8,5%. A expansão será puxada pelo mercado interno, que deve elevar a participação sobre as vendas de 70% para 80% no período, disse Schefer.
A Piccadilly, fabricante de calçados femininos, vai ampliar a capacidade de produção da matriz em Igrejinha e das filiais em Rolante e Teutônia em 75%, para 70 mil pares por dia até o fim do ano. Conforme o diretor-presidente da empresa, Paulo Grings, tanto as vendas no mercado interno quanto as exportações - que representam de 25% a 30% das vendas - estão em alta e a empresa prevê fechar o ano com produção acumulada de 8,9 milhões de pares, ante 7,9 milhões em 2009. As ampliações fazem parte de um projeto de investimentos de R$ 6 milhões até 2011.
Pelos cálculos do presidente da Abicalçados, os novos investimentos que começam a ser postos em marcha pelas calçadistas também devem aumentar o número de empregos do setor dos 320 mil atuais para 400 mil até o fim de 2011. Só neste ano, por exemplo, a Piccadilly deve ampliar o quadro de 2,2 mil para 3 mil pessoas. A West Coast, que tem 500 funcionários, vai contratar mais 200 para iniciar a operação da fábrica de Sergipe, mesmo contingente que já foi recrutado pela Bottero - agora com 2,2 mil empregados - para a planta de Travesseiro. A Vulcabrás, com 40 mil funcionários, 5,2 mil dos quais contratados em 2009, também vai expandir o quadro, mas Cardoso não especificou em que medida.
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